
Um refúgio para o rock'n'roll
Há lugares que toda a gente conhece — e há lugares que se conquistam. O Club Mutante pertence à segunda categoria. Quem entra pela primeira vez percebe logo que ali ninguém fala de eventos pensados para agradar às massas. O conceito é assumidamente anticonvencional: uma sala de concertos e um clube noturno num só espaço, dedicado à cultura e avesso a convenções. Desde a fundação, o Mutante tornou-se a principal casa das bandas de repertório original em Palma — um lugar onde tocar música própria é o único requisito de entrada.

Santa Catalina como palco
A morada, Carrer de la Indústria 8, não foi escolhida ao acaso. Santa Catalina é o bairro mais vibrante de Palma — um antigo bairro piscatório do século XIX, em torno do Mercat de Santa Catalina, existente desde 1920, que evoluiu para uma zona boémia e cosmopolita, com wine bars, bares de cocktails, restaurantes e espaços de música ao vivo. A rua de passeio Carrer de Sant Magí, o ponto de encontro da Plaça del Vapor, o aroma das tapas acabadas de preparar ao ar livre — é este o cenário que se abre antes de entrares no Mutante. E na própria Indústria está a nascer um verdadeiro microcosmo da Palma alternativa: algumas portas mais adiante fica o clube de techno Es Moli. Não é por acaso que a equipa do Mutante escolheu precisamente esta rua para a sua nova fase.
História de uma mutação
A primeira encarnação do Club Mutante viveu na Carrer Joan Miró — num edifício que já nos anos 1990 se tornara lendário como Virus e que, mais recentemente, reunira uma geração de amantes de música de Palma como La Sifonería. Quando o edifício teve de dar lugar a um projeto hoteleiro, o Mutante despediu-se com uma inesquecível festa de encerramento. A Mutación não foi uma derrota — fez parte do programa. O fundador David Valle, que também gere o espaço Maraca, em Palma, transferiu o conceito para um local melhor: a Indústria 8, em Santa Catalina.
Som, interior e ambiente
O Mutante é um espaço pensado para a música — uma escada desce até à cave, onde se esconde a sala propriamente dita. A estética é industrial e escura, e o palco fica perto do público — não há maus lugares nem aquela distância fria entre a banda e a plateia. O som é descrito como audiófilo e de grande qualidade, algo que não é garantido nas salas de música ao vivo, muitas vezes sem concessões, de Palma. A lotação situa-se nas poucas centenas; nas noites esgotadas, cria-se uma proximidade física com o que acontece em palco que as grandes salas simplesmente não conseguem proporcionar.
O público não é uma mistura aleatória — é uma comunidade. Os habituais conhecem-se; o visitante médio traz consigo trinta anos de estantes de discos e uma curiosidade genuína. O ambiente é maravilhosamente descontraído, concentrado na música e sem a complacência de alguns espaços «underground».
La Tarde Indie — o formato mais indie de Palma
O verdadeiro mito do Mutante nasceu nas tardes de sábado. „La Tarde Indie“ é o autoproclamado *caballo ganador* da casa: um tardeo de indie e rock alternativo que começa cedo e se prolonga naturalmente por uma noite de clube dedicada ao indie rock. Residentes como Clandestino DJ, Rique Spun ou a equipa Supersonidos passam hinos de Viva Suecia, Arde Bogotá, The Strokes e Arcade Fire — uma seleção que não vem da rádio, mas do instinto. A entrada é gratuita até ao cutoff; quem chega depois sabe que vai pagar por algo que vale a pena.
Concertos e rede da cena musical
O coração do Mutante bate no palco. A casa apresenta ciclos próprios de concertos — entre eles o formato semanal de quinta-feira „Esos Juernes“, dedicado a uma banda e nascido do coletivo itinerante de rock/punk/garage Gabba Gabba Hey Club. O seu próprio „Festival Mutante“ consolidou-se como uma referência fiável no calendário cultural de Palma. Os artistas contratados abrangem todo o espetro do género: de Brighton 64 e Go Cactus a Guadalupe Plata e Camellos, passando por Hombre Lobo Internacional e Grande Amore. Para artistas em digressão de maior dimensão — também promovidos pela equipa do Mutante — recorre-se à maior Sala Es Gremi: o Mutante mantém-se, deliberadamente, um espaço íntimo.
Espetro de géneros: indie, indie rock, alternative, punk rock, garage rock, power pop, rock'n'roll — e, nas noites de clube, sets eletrónicos e guiados por sintetizadores. Há uma regra comum a toda a programação: o repertório original é obrigatório. Sem bandas de versões, sem compromissos comerciais.
Porque é que o Mutante importa
Numa cidade onde a música ao vivo é muitas vezes apenas um complemento da restauração, o Club Mutante faz algo mais raro: coloca a música no centro de tudo. É isso que faz dele a principal âncora da cena alternativa de Palma — e um dos programas noturnos mais invulgares que a ilha tem para oferecer.



